30 de jan de 2008

Os Mediadores Das Deliberações Públicas


A mídia tem poder sobre a sociedade atual. É inegável e amplamente discutida tal afirmação, não somente entre especialistas ou pessoas mais instruídas, mas também no círculo ao qual pertencem os componentes do chamado senso comum. Este conjunto de indivíduos, que muitas vezes desconhecem a própria relevância, constitui um alicerce de fundamental importância para toda e qualquer mídia noticiosa: a opinião pública. Entre público e mídia existe uma relação delicada – e em certos aspectos controversa – que nos leva a questionar: até que ponto pode-se considerar a mídia como um poder?

Em meados de 1828, quando os meios de comunicação sequer tinham uma abrangência em massa, surge a definição de mídia como uma espécie de Quarto Poder. Esta denominação traz consigo uma série de ideologias implícitas, nas quais a sociedade se baseou para considerar a mídia como uma defensora de seus interesses e como principal mecanismo de vigilância dos demais poderes. Com isso, além de guardiã social, a mídia deve agir como mediadora entre as relações da sociedade com os poderes executivo, legislativo e judiciário.

Os meios de comunicação social defendem os interesses da população através de denúncias e investigações, precavendo a sociedade contra eventuais prejuízos, tanto de caráter financeiro quanto de caráter moral, provocados por falhas ou descasos de seus representantes. Todavia – como defende o autor português Nelson Traquina, em seu livro O Estudo do Jornalismo no Século XX (Editora Unisinos, 2001), ao dissertar sobre quem deve vigiar o Quarto Poder – é elementar percebermos que os próprios cidadãos precisam envolver-se nos seus próprios assuntos cívicos, e não esconder-se por trás de uma crítica generalizada, que é muitas vezes uma máscara que esconde sua incompetência.

Notamos que a imprensa, de modo geral, não deve receber total confiança da sociedade. Como qualquer associação de caráter competitivo, que muitas vezes visa o lucro, a mídia noticiosa não está livre das influências de poderes políticos, econômicos e até mesmo de relações de interesse pessoal. Tais interferências induzem a mídia a excluir ou mesmo omitir determinados acontecimentos, fazendo um julgamento prévio dos fatos e decidindo de forma quase arbitrária o que é de interesse público e o que não é.

O poder da imprensa é, acima de tudo, um poder de influência. Como todo bom influenciador, ela precisa muito de influenciados passíveis, que consumam suas ideologias logo que instantaneamente após serem “inoculadas” em suas mentes, como defendia Harold Lasswell, em seu primeiro momento, na teoria conhecida como Agulha Hipodérmica. Contudo, o próprio Lasswell reconheceu mais adiante que essa sociedade não é tão passiva e é dotada de criticidade, uma instabilidade opinativa que o público tem e que pode por em xeque o poder midiático.

[...]

Não obstante, a mídia tenta a todo custo moldar a opinião pública, tratando-a como uma verdadeira arma. O poder da imprensa reside na capacidade de promover uma espetacularização das situações, a fim de impressionar as pessoas, confundindo o que seria “interesse público” com o “interesse do público”. De essencial, a notícia torna-se uma mera atração, um entretenimento que banaliza o real sentido dos acontecimentos.

A mídia pode ajudar a sociedade, mas também pode aliená-la. Com isso, cabe aos expectadores notar que ela possui poder, mas não é um. Pode-se confirmar tal afirmativa pelo simples conceito da palavra “poder”:

po.der: s. m. 1. Faculdade, possibilidade. 2. Faculdade de impor obediência; autoridade, mando. 3. Império, soberania. 4. Posse, jurisdição, domínio, atribuição. 5. Governo de um Estado. 6. Forças militares. 7. Força ou influência. 8. Força física ou moral. 9. Eficácia, efeito, virtude. 10. Meios, recursos. 11. Capacidade de agir ou de produzir um efeito : P. aquisitivo. — P. espiritual: autoridade eclesiástica. P. temporal: a) autoridade civil; b) o poder dos papas como soberanos territoriais. (Software Dic. Michaelis – UOL)

Os meios de comunicação não nos impõem obediência e muito menos têm autoridade para mandar e desmandar em nossas opiniões. Eles podem intermediar nossos interesses, mas sem jamais deliberar o que nos é relevante ou não. Estrategicamente, todos nós fazemos parte de um complexo ciclo vicioso, uma delicada teia de relações sociais infinitas: os três poderes são vigiados pela imprensa – um quarto poder – que é vigiada por nós, seguidores das regras dos “três” e influenciados (ou influenciadores) pelas idéias do que seria “quarto”.

A sociedade só está em perigo quando não se importa ou se sente insignificante demais para se permitir conduzir a própria trajetória.

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Trabalho que ganhou 10,00 em Introdução ao Jornalismo - UFPI - 2007.2 Texto com algumas alterações e cortes.

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